VIDA COMUNITÁRIA

Vida Comunitária-eremítica

A intenção declarada de Santo Alberto na Regra carmelitana, é de "uma fórmula de vida" que determine o modo pelo qual os ermitãos deverão conseguir o "propósito" que os reuniu no Monte Carmelo para "viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente", com pureza de intenção e entrega total.

Neste projeto aparece a modalidade específica de um compromisso e de um ideal, ambos como busca consciente de radical coerência cristã.

O ideal é o de uma vida comum que reproduza a figura e a alma da primeira comunidade cristã de Jerusalém, descrita exemplarmente no livro dos Atos dos Apóstolos. O compromisso se incorpora nesse ideal e é, principalmente, um combate vigilante e perseverante como convém a crentes decididos a defender a própria identidade batismal e a viver, renovada em suas pessoas, a vitória pascal de Cristo Senhor.

A presença simultânea destas duas linhas imprime a Regra uma tensão característica: a primeira linha encontra confronto coerente num projeto comunitário onde a união fraterna é a sede e o veículo de uma renovação de vida repleta de Cristo, antecipando a "plenitude dos tempos".

A segunda linha indica uma orientação à primeira vista divergente. Apesar de viver em comunidade e de buscar a perfeição evangélica de união fraterna, o carmelita travará o combate da fidelidade cristã no "deserto", adaptado a uma solidão vigilante e orante que lhe dá consistência.

Portanto, é na relação vivida destas duas tendências: comunidade e eremitismo, que está na proposta mais original da Regra carmelitana.

Os jovens chamados ao Carmelo devem possuir as qualidades necessárias para levar uma vida na qual conjugam:

  • união com Deus na solidão e
  • encontro fraterno em comunidade.

"O estilo que pretendemos levar é de ser não só monjas, mas ermitãs." Sta. Me. Teresa C 16,6.

Nas fontes da comunhão fraterna

"Exorto-nos... a caminhar de maneira digna da vocação a que fostes chamados: com toda humildade, mansidão e paciência, suportando-vos mutuamente com amor, buscando conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz." Ef 4,1-3.

A união fraterna, vivida como expressão evangélica de caridade, marca profundamente a Regra carmelitana. Do primeiro ao último capítulo está presente e definido um programa de vida, pensado e proposto como busca de comunhão fraterna madura e generosa, humilde e compassiva.

Vínculo da perfeição e vitalidade específica da família de Deus, originada em Cristo Jesus, a caridade é a única realidade que "edifica" a Igreja e dá ao povo de Deus ser uma comunhão de irmãos. Ainda mais, inclui a paciência e a humildade, a bondade e a compaixão, a doçura e o respeito recíprocos, a generosidade e o serviço, valores inatos à figura comunitária e fraterna de identidade cristã.

A Regra do Carmelo pode ser lida como uma afirmação estruturada de caridade: brota das fontes da Eucaristia cotidiana, da oração perseverante e da Palavra de Deus meditada assiduamente. A caridade é em verdade o vínculo que dará consistência a vida comum, proposta aos filhos do Carmelo e a projetará na presença de Deus como comunidade cristã solidamente fundada.

Da comunhão dos corações à comunidade de bens.

"A multidão daqueles que tinham chegado à fé tinha um só coração e uma só alma; e nenhum dizia que era de sua propriedade o que lhe pertencia, senão que todas as coisas eram comuns entre eles'' (At 4).

Sendo uma renúncia em vista do Reino dos céus e do seguimento de Cristo, a pobreza é vivida como sinal da união fraterna e testemunha aquela comunhão de corações que distingue o povo da nova aliança.

Ter "um só coração e uma só alma", é a perfeição de uma humanidade capaz de viver em caridade pelo fato de que foi renovada segundo Deus, de uma comunidade onde cada um revestido no íntimo da energia divina do Espírito, recebeu "um coração novo e um espírito novo." Escreve Paulo, o teólogo da "novidade no Espírito" (Rm 7,6) e da "lei (interior) do Espírito" (Rm8,2): "O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado."

"O Espírito de Cristo é chama e fogo de amor."

O pequeno colégio de Cristo

Teresa de Jesus se propôs organizar uma comunidade contemplativa, internamente compacta e, quanto possível, autossuficiente, isto é, não sujeita as pressões do exterior. A vida deverá determinar-se por motivos internos do grupo; antes de tudo, pelo grande ideal contemplativo, teologal e eclesial.

Ao organizar a sua primeira comunidade, ela a definiu: "esse pequeno colégio de cristo". Trata-se de uma imagem muito expressiva. Teologicamente, coloca o acento sobre a centralidade de Cristo na vida dos membros dessa comunidade. Ele é quem a reúne em seu amor, para viver como os doze, na primitiva Igreja. Assim, gozam de sua intimidade, escutam sua palavra, participam em sua missão salvífica e universal.

Cristo torna-se a motivação suprema do "amor de umas com as outras", pois o amor é o preceito do Senhor. E trata-se de imitar o "capitão do amor".

"Convençamo-nos, filhas minhas, de que a perfeição verdadeira consiste no amor de Deus e do próximo. Quanto mais fielmente guardarmos esses dois mandamentos, tanto mais seremos perfeitas. Toda a nossa Regra e Constituições são apenas meios para melhor guardarmos esses dois preceitos" (1M 2,17).

"...nesta casa, onde hão de ser poucas, todas as irmãs devem ser amigas, todas hão de se amar igualmente, todas hão de se querer, todas hão de se ajudar" (C 4,7).

Por isso, uma definição plástica dos contemplativos é: estar presentes e com desejo de servir (cf. C 18,4). Caminhar e viver na presença do Senhor, mediante a sensibilidade dada pela oração. Estar com Desejos de servir, porque tudo, afinal, é serviço do Senhor (C 17,6).

O espirito contemplativo deve plasmar interiormente a comunidade, dando-lhe a forma de comunidade orante. Esta efetua-se através de uma estrutura comunitária especifica, da comunhão de todas no grande ideal contemplativo e da vivencia de certos momentos fortes: liturgia, oração mental, leitura da Palavra de Deus, refeitório comum, recreação, silêncio e solidão.

"Esta casa é um céu"