OS VOTOS

A castidade consagrada

Seguindo Cristo Virgem, para ser santos de corpo e espírito, professamos com voto a castidade pelo reino dos céus. É insigne dom da graça.

Enquanto renunciamos aos bens do matrimônio e da família, participamos de modo singular do mistério da união da Igreja com Cristo, seu Esposo; anunciamos o reino futuro com a liberdade de um coração indiviso no amor.

Com jubilosa manifestação da caridade de Deus, cuja fecundidade alimenta e manifesta, a castidade consagrada dispõe-nos à contemplação das coisas divinas e a misteriosa união com Deus que é a meta de nossa vida carmelitana.

São João da Cruz ensina a fazer de toda a vida uma oblação a Deus, oferecida sobre o altar do coração, numa pureza total.

A alma que pretende subir a montanha da perfeição, entrar em comunhão com Deus e fazer de si mesmo altar para oferecer a Deus o sacrifício de puro amor, louvor e adoração pura, deve rejeitar os apegos e afeições do coração e deixar-se purificar na noite escura dos sentidos. Então Deus transformará as vestes velhas em novas, pondo na alma novo conhecimento de Deus em Deus e novo amor de Deus em Deus. A alma é assim transformada em seu modo de agir, que de humano torna-se divino. Tal é o resultado deste estado de união em que a alma se torna altar onde somente Deus reside e recebe sacrifício de adoração, louvor e amor. Subida I 5,7

"Grandes muros são os da pobreza" C 2,8

Santa Teresa de Jesus estava convicta de que a contínua e amorosa contemplação de Cristo e de sua vida não pode deixar insensível quem deseja seguir a Jesus. "Procuras unir-te a Deus. Pretendes seguir os conselhos de Cristo carregado de injurias e de falsos testemunhos e desejas guardar intacto o crédito e a honra? Não é possível chegar lá. Os caminhos são opostos" (V 31,22). Quanto é preciso meditar até poder perceber a pobreza de Jesus Cristo em toda sua força e verdade! Ele foi pobre não só porque viveu em um despojamento material, mas porque foi humilhado e repelido pelos homens.

O pobre que Teresa contempla em Jesus é, portanto, aquele que a Escritura designa com o nome de Servo de Deus; aquele que recapitula em si mesmo e leva à última perfeição toda a justiça e santidade dos pobres do Senhor. Jesus foi pobre desde o primeiro momento de sua conceição no seio virginal de Maria.; alcançou o ponto culminante quando morreu na cruz despojado de tudo e abandonado por todos. Este mistério prolonga-se admiravelmente na Eucaristia.

A pobreza, segundo Teresa, é um meio para estarmos inteiramente unidos a Cristo, para a edificação de toda a Igreja. Por isso, insistia: "Os olhos em vosso esposo, ele vos há de sustentar" (C 2,1) Teresa de Jesus quer reviver em profundidade a Regra primitiva. Nela, seus anseios de pobreza apostólica encontram firme apoio. Se mais tarde ela permite que alguns mosteiros situados em cidades pobres tenham rendas, é em vista do bem das almas. A excessiva preocupação com o necessário prejudica a oração. Quer que em todos a tendência seja para a pobreza absoluta.

     Assim como em outros pontos, nada propõe que não esteja na Regra primitiva. Nesta, encontrarão os filhos do Carmelo a reprodução exata da pobreza "apostólica", condição necessária para que suas orações possam ser ouvidas: 

"Se procurarmos com grande cuidado guardar perfeitamente nossa Regra e Constituições, espero no Senhor que admitirá nossos rogos; não vos peço coisa nova, filhas minhas, mas sim que guardemos nossa profissão, pois é nosso chamamento..." (CV 4,1)

A pobreza consagrada

Para participar da pobreza de Cristo que "sendo rico se dez pobres por nós, a fim de que nos tornássemos ricos por meio de sua pobreza", professamos o conselho evangélico da pobreza. Empenhamo-nos em praticar pobreza interior e exterior, em tudo possuir em comum, em submeter-nos aos superiores no uso de todas as coisas. Visto que tudo deixamos pelo Senhor, nada usamos como coisa própria. Com a profissão solene, renunciamos à propriedade dos bens e a capacidade de adquiri-los. Os bens que ulteriormente nos advirem, passam ao mosteiro ao convento.

Ao abraçar a pobreza evangélica, procuramos criar condições de liberdade interior e exterior que favoreçam o encontro contemplativo com Deus. Alimentamos o fervor da abnegação com o desprendimento do espírito, que é a um tempo exercício e testemunho da bem-aventurada esperança.

Assim, com Maria, seremos do número dos "pobres do Senhor" que tudo esperam unicamente de Deus.

A medula do conselho de pobreza dado por Cristo a seus apóstolos consiste no convite a entregarem-se incondicionalmente à providência divina, em tudo que diz respeito ao sustento material, sem inquietação e com absoluta confiança: "Não vos preocupeis com vossa vida, pelo o que comereis; nem com vosso corpo, com que vestireis...olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam...e vosso Pai Celeste as alimenta. Não valeis mais que elas? Buscai, antes, o Reino de Deus e sua justiça e todas as demais coisas vos serão dados por acréscimo. "

Tudo pertence a Deus e tudo vem dele.

Quaisquer que sejam os meios pelos quais nos chega aquilo que precisamos para nossa subsistência, é de Deus que recebemos. O mesmo acontece com o pão que os irmãos ganham com o seu próprio trabalho; também este é Deus que dá: "Ajudem-se com o trabalho de suas mãos, conforme fazia São Paulo, que o Senhor as proverá o necessário. " (Const. nº9)

Enquanto criador e Senhor do Universo, ele é a própria riqueza" (CE 37,6). Tudo Lhe pertence...com vossas inquietações os outros não mudam seus pensamentos, nem sentem desejo de vos dar esmolas. Deixai esses cuidados Àquele que move os corações e é o Senhor dos ricos e das riquezas. Chamadas por ele, aqui viemos. Suas palavras são verdadeiras, não faltam; antes passarão os céus e a terra" (C 2,2)

Trabalho

Segundo a exortação da Regra, devemos trabalhar como pobres para viver e servir os demais.

Mas que o trabalho não entorpeça a vida contemplativa.

Teresa de Jesus tomou muito a sério o trabalho. Ela não definiu, mas soube nisso orientar seus mosteiros com rara percepção. Aplica o conceito de trabalho às misérias, dificuldades, doenças, deveres, sofrimentos...depois do pecado, qualquer esforço interior ou exterior traz o selo da dor e da mortificação. Esta, à luz da encarnação e redenção de Cristo, torna-se expiação libertadora. O trabalho é exercido como uma ascese que ajuda a equilibrar a pessoa e estimula a ação mais alta do espírito. "Louvo ao Senhor por haver quem com tantos trabalhos haja alcançado a verdade que nós, os ignorantes, desconhecemos" (V 13,19).

Teresa deseja que aceitemos o trabalho em correspondência aos que o Senhor sofreu por nós. Jesus Cristo é o centro de tudo. Aquele que é o exemplo é também o motivo do amor. Assim, o trabalho toma um aspecto atraente e estimulante até parecer suave. "O amor torna o trabalho descanso" (Excl.5,2). Ela descobre também o sentido da presença divina no esforço humano. Para que este seja eficaz é necessário aceitar o companheiro oculto e trabalhar conscientemente na certeza de sua colaboração. "Em negócios, perseguições e trabalhos...Cristo é muito bom amigo, porque o contemplamos homem, e o vemos com fraquezas e trabalhos" (V 22,10).

Disto nasce garantia e grande esperança. "Não tenhais medo de que se perca vosso trabalho" (C 18,3).

Conhecedora da psicologia humana, Teresa sabe o que supõe de esforço o trabalho como lei universal. Sabe que, por natureza, fugimos daquilo que cansa! "Como queremos fugir do trabalho, tudo nos cansa" (Ct 158,11). É compreensiva! Por experiência própria diz: "Cansam-me tantos trabalhos. " Compadece-se de uma de suas primeiras monjas: "Muito me pesa que tenha tantos trabalhos, mas quem deseja ser santa, mais do que isto há de sofrer" (Ct 183,1). Tem conceito muito claro da inexorabilidade do trabalho para aquele que aspira algo de elevado. Pois o homem possui forças e possibilidades para se realizar no trabalho. "Deus nos deu as potências para que com elas trabalhemos" (4M 1,4). Teresa deu exemplo de contínuo trabalho, fiando mesmo com muita febre. "No trabalho gostava de ser a primeira" (F 19,6).

A regra determina que devemos trabalhar para que o demônio não nos encontre ociosos e nos tente. Além disso, o primeiro motivo do trabalho é o próprio sustento. Teresa de Jesus quer que a subsistência se alcançada com o próprio trabalho. Ela respeita as habilidades pessoais em todos níveis, mas quer que no trabalho comum da casa todos participem.

O trabalho na cela, de costura ou de estudo, escrevendo e traduzindo...atendendo confissões e orientando exercícios espirituais...na horta, na construção, no artesanato, na cozinha...que importa?

Pois, se contemplar, ter oração mental e vocal, tratar das enfermas, ocupar-se nos ofícios da casa, fazer os trabalhos, ainda os mais humildes, tudo é servir ao Hóspede que vem hospedar-se conosco, que importa servi-lo neste ou naquele ofício? (C17,6)

A obediência consagrada

Com o fim de mais fielmente imitar e manter sempre presente na Igreja a forma de vida que o Filho de Deus abraçou quando veio ao mundo para fazer a vontade do Pai e que propôs aos discípulos que o seguiam, nós nos comprometemos com votos a seguir o conselho evangélico da obediência.

Por isso, oferecemos a Deus em sacrifício a renúncia completa de nossa vontade, unindo-nos da maneira mais certa e segura à vontade salvífica de Deus, à imitação de Jesus Cristo. Tomando a forma de servo pelo sofrimento aprendeu a obediência.

Em espírito de fé, submetendo-nos aos superiores, amando-os como representantes de Deus. Sob sua orientação nos colocamos ao serviço de todos os irmãos.

A obediência com a qual limitamos nossa liberdade de escolha, submetendo-nos às decisões dos superiores, deverá ser continuamente vivificada pelo diálogo sincero e na caridade com o superior e com a comunidade, sem prejuízo do caráter de imolação e sacrifício inerente à própria obediência, que tem por fundamento o mistério pascal de Cristo.

Se Teresa, em todos os seus escritos, de um lado pede que se cumpra virilmente a obediência, de outro pede aos superiores que ao mandar façam com o amor de Cristo. Em muitas de suas cartas traça a figura do superior que ela deseja. A priora ...procure ser amada para ser obedecida" (Const.34). Tratando com as irmãs "lembre-se de que são filhas de Deus" (BMC 19 P.35; P.C.14).

Acerca do diálogo entre priora e religiosas, Teresa orienta uma de suas jovens prioras: "...clamar e não querer ouvir com bondade as irmãs, quando se desculpam, não está bem. Adão tinha culpa e Deus o sabia muito bem; contudo, o escutou. Podemos desejar modelo melhor?

Não há caminho que mais depressa leve a grande perfeição que o da obediência" (F. 5,10)

O ideal de comunhão com Deus proposto por nossos pais, Teresa e João da Cruz, consiste essencialmente na união de nossa vontade com a vontade divina, de forma que das duas vontades se faça uma só, a de Deus. Esse ideal estimula-nos a uma constante procura individual e comunitária da vontade de Deus mediante a obediência aos superiores.

Unindo-nos assim, mais intimamente às atitudes de Cristo obediente ao Pai até a morte de cruz, damos à nossa obediência o sentido de uma adesão teologal a tudo que agrada a Deus.

É modelo e ideal dessa obediência a Humilde Virgem Maria (C 13,3), que na sua conduta não se deixou influenciar pelas criaturas. Ao contrário, em todas as suas ações deixou-se guiar exclusivamente pela moção do Espírito Santo. ( S.J. da Cruz, S III 2,10)

Como verdadeiros "filhos da Igreja" devemos receber com docilidade e alegria tudo o que a Santa Igreja nos propõe através do Magistério e da legítima autoridade. Andaremos com obediência ativa e responsável, pelo caminho que essa autoridade nos indica, felizes de estarmos vinculados ao Vigário de Cristo em virtude do voto de obediência.

Renúncia

Caríssimos irmãos,

"A prática dos conselhos evangélicos comporta em si mesma um profundo reflexo desta dualidade pascal: o aniquilamento inevitável daquilo que em nós é o pecado com sua herança, e a possibilidade de renascer cada dia para um bem mais profundo, escondido na alma humana.

Esse bem manifesta-se sob a ação da graça em relação a qual a prática da castidade, da pobreza e da obediência torna particularmente sensível a alma do homem. Toda a economia da redenção se realiza precisamente mediante esta sensibilidade à ação misteriosa do Espírito Santo, obreiro direto de toda a santidade. É nesta linha que a profissão dos conselhos evangélicos abre, em cada um, espaço amplo para a "nova criatura". Que emerge no vosso "eu" humano...

Aquele que um dia disse a cada um de vós "segue-me", disse-vos também: "Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me", ou seja, caminhe em minhas pegadas. A lei da renúncia, portanto, pertence à própria essência da vocação cristã. Mas pertence de modo especial à vocação ligada à perfeição dos conselhos evangélicos. "Por Ele renunciei a todas as coisas e considero-as como lixo, a fim de ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele." (Fl 3,8-9).

Se impõe, portanto, renúncia, reflexo do mistério do calvário- para alguém "se encontrar" mais plenamente em Cristo crucificado e ressuscitado".

(Exortação apostólica Redemptions Donum, S.João Paulo II)