AS ORIGENS

Sai e permanece na presença do Senhor: Ele vai passar. (1Rs 19,11)

A vocação ao Carmelo compromete a viver "em obséquio de Jesus Cristo, meditando dia e noite na lei do Senhor e velando em oração".

Teresa de Jesus intuiu profundamente esta vocação original, ao apresentar a oração como centro e ideal do Carmelo.

Por este motivo seus membros são reconhecidos pela Igreja como uma comunidade que se esforça por viver intensamente o mistério da oração cristã e que dá testemunho com a vida. O Carmelo imita o "Cristo que contemplava no monte". 

Logo em seguida, forçou os discípulos a embarcar a aguardá-lo na outra margem, até que ele despedisse as multidões. Tendo-as despedido, subiu ao monte, a fim de orar a sós. Ao chegar à tarde, estava ali sozinho. (Mt 14,22-23)

Santa Teresa de Jesus ao promover a reforma do Carmelo, responsabiliza seus mosteiros pelo patrimônio espiritual da ordem: a volta às origens e o novo espírito. Estes serão os dois polos de sua empresa fundacional.

Por amor de nosso Senhor lhes peço: Lembre-se de quão depressa tudo se acaba, da mercê que nosso Senhor nos fez, trazendo-nos a esta ordem, e das grandes penas que terá quem nela introduzir algum relaxamento. Ponham sempre os olhos na casta de onde viemos, naqueles santos profetas. Quantos santos temos no céu, que trouxeram este hábito! Tenhamos a santa presunção, com a ajuda de Deus, de ser como eles."

Este modo de sentir sua vocação pessoal é determinante, ao fundar a primeira casa, o mosteiro de São José. E passa a definir a finalidade do Carmelo reformado: a Santa quer que este continue a fomentar a vida, o espírito e os ideias do primitivo, tal como entende ela.

O patrimônio espiritual carmelitano que, através do carisma teresiano, vem enriquecer o espírito dos novos carmelos, acha-se integrado por estes fatores primordiais: marianismo, elianismo, biblismo e regra primitiva.

Agora começamos, e procurem ir começando sempre, de bem a melhor." SANTA TERESA DE JESUS (Fundações 29,32)

Espírito profético

O Carmelo se inspira nas grandes figuras bíblicas de Elias e os profetas de seu tempo.

Considerando os personagens bíblicos, os filhos do Carmelo tomam consciência mais viva do sentido profético de nossa vocação, totalmente orientada a ouvir a Palavra divina e a dar um particular testemunho do Deus Vivo, de seu amor todo poderoso e das supremas exigências do seu Reino.

Elias é semelhante ao fogo, e sua palavra é como chama ardente para defender o Deus único e verdadeiro. É também o grande contemplativo a viver no deserto e nas grutas a presença e a experiência de Deus.

A seu exemplo, outros eremitas – filhos dos profetas – viviam nas grutas esparsas pelo Monte Carmelo, inteiramente entregues à oração.

Começava, então, a tomar corpo a chamada escola dos profetas, que congregaria em seu seio os mais longínquos ancestrais da Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo.

Tal escola foi o berço desta Ordem e da devoção à Mãe de Deus.

Mais tarde adotaram viver também em grutas agrupadas, talhadas nas rochas, com suas respectivas janelas, entre pequenas fontes cujos filetes de água correm por toda parte. São verdadeiramente lugares propícios para a contemplação.

Os visitantes do Santo Monte diziam que os eremitas do Carmelo fabricavam, à semelhança de laboriosas abelhas, em suas colmeias, o delicioso mel espiritual.

Elias orou e o Senhor fez descer fogo... Elias orou, prostrado em terra, e o Senhor enviou a chuva..." (1Rs 18,37-45)

O Carmelo se inspira também em certas figuras típicas do Novo Testamento, dentre as quais se destacam São José e São Paulo.

São Paulo, indicado como modelo pela Regra, é preconizado insistentemente por Santa Teresa, que lhe dedica a capela da primeira fundação.

Santa Teresa recorre ao Apóstolo ao longo de seus escritos quando quer expressar a sua experiência mística.

São José passa diretamente da experiência interior de Teresa às honras de mestre de oração e modelo de trabalho para o novo grupo.

Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo

A 'Instrução dos primeiros monges' diz que, desde os tempos dos Apóstolos, os discípulos de Elias eram chamados Irmãos da bem aventurada Virgem Maria, por causa do culto que vinham prestando a Mãe de Deus, vista por Elias na figura da nuvem do Carmelo. Também pela conformidade de vida com a Virgem, na solidão, silêncio, vida de oração e sacrifício. 

Para serem dignos daquele título, que supõe intimidade e convivência, deveriam, obviamente ter uma profunda vida mariana. Foram os irmãos que – provavelmente no ano 83 – erigiram o primeiro templo dedicado à Virgem Santíssima. 

Mais tarde, na emigração dos primeiros monges para o Ocidente, sofreram perseguição, quase até a extinção da Ordem, porque se chamavam irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria, coisa que desagradava a muitos. Era demais pretender o título de irmãos de Nossa Senhora... Mas a Vigem Maria veio em auxílio! 

Por essa época, está Simão Stock ao leme da barca de Maria, sobre águas por demais revoltas. E, como o sofrimento de um corpo se reflete na cabeça, o santo monge é o mais cruelmente oprimido pelas aflições que acometem a Ordem de Maria, a ele confiada. 

Ajoelhando-se em sua pequena cela, derrama sua alma em ardentes preces... Subitamente, enche-se a cela de uma grande luz. A rainha do céu diz-lhe, mostrando o escapulário: 'querido Filho, isto será para ti e para todos os carmelitas uma proteção; quem morrer revestido dele não sofrerá o fogo eterno. Recomendo-lhe que fale ao Papa João XXII. Pressuroso, obedece à ordem da Virgem. O Papa confirma o título tão contestado. A Ordem jamais se extinguirá. 

O primeiro templo dedicado a Maria é uma gruta maior junto à do profeta Elias, no patrimônio do Carmelo. Quando nossa Senhora subiu ao céu, permaneceu espiritualmente com seus irmãos. Estes, na gruta onde cantam hinos e salmos, conservam sempre um círio aceso, sinal da presença de Maria.

A Virgem Maria é a Mãe e a Senhora da Ordem." SANTA TERESA DE JESUS

"Somos da Virgem"

O Carmelo experimentou e confirmou, com Santa Teresa e São João da Cruz, esta inspiração mariana das origens. Modelo de oração e abnegação no caminho da fé, Maria é aquela que se consagrou a acolher e a contemplar, com a inteligência e o coração, a Palavra do Senhor, deixando-se guiar pelo Espírito Santo. Unida a Cristo no seu mistério pascal, participou de seu amor, de seu sofrimento e de sua alegria.

A contemplação de Maria, como perfeita realização do ideal da Ordem, nos estimula a seguir suas pegadas a fim de que, com o coração de "pobre do Senhor", na perene meditação da Palavra de Deus e no multiforme dom da caridade, configuremos nossa vida à dela. Assim, somos sempre introduzidos no mistério de Cristo e de sua Igreja.

A consagração à Virgem está explicita na fórmula de profissão. Somos da Virgem! Maria, nosso modelo, é o silêncio contemplativo que acolheu a Palavra.

"Cada uma das irmãs procure alimentar e manifestar seu amor filial a Santíssima Virgem, honrando-a cada dia com algum exercício piedoso recomendado pela Igreja, especialmente o Rosário. Roguem a Maria pelas necessidades da Igreja e do mundo. Por estas intenções a comunidade recitará cada dia a Ladainha da Virgem. Aos sábados e nas festas da Virgem, canta-se solenemente a Salve Rainha." (Constituições das Monjas)

Regra primitiva

Guardamos a Regra de Nossa Senhora do Carmo, a primitiva sem mitigação. LIVRO DA VIDA 36,26.

Os primeiros eremitas já se achavam reunidos no Monte Carmelo por volta do ano 1150, conforme atesta o monge Focas.

Aproximadamente ao ano 1209, Alberto, patriarca de Jerusalém, deu ao eremita Brocardo e a seus irmãos do Carmelo uma regra que ratificava e completava o "propositum" destes primeiros monges.

A Regra carmelitana é um projeto de vida, concebido e formulado por uma pessoa na qual "habitava" superabundantemente a Palavra do Senhor e, por conseguinte, inclinada como por instinto a pensar e expressar tudo por meio da palavra bíblica. É um texto curto. O que a caracteriza é a intemporalidade.

O IVº Concílio de Latrão, em 1215, havia decretado que não mais se fizesse novas regras, mas as novas congregações se utilizassem das existentes. A Regra do Carmelo recebeu a aprovação porque trazia data anterior ao Concílio. Devido às contínuas perseguições dos sarracenos, os carmelitas passaram ao ocidente. Aí encontraram dificuldades de adaptação ao espírito eremítico e houve mitigação na Regra.

Santa Teresa de Jesus, ao reformar o Carmelo, retomou a Regra de Santo Alberto de Jerusalém, aprovada por Inocêncio IV.

As principais linhas diretrizes de nossa vocação encontram-se na Regra que Santo Alberto deu aos carmelitas:

  • Abraçar o seguimento de Cristo, para viver em seu obséquio e serviço com coração puro e reta consciência na prática dos conselhos evangélicos;
  • Meditar dia e noite, na solidão da própria cela, a Lei do Senhor, velando em oração, para que a Palavra de Deus abunde nos lábios e no coração, e tudo seja feito sob sua inspiração;
  • Celebrar cada dia a Eucaristia e a oração da Igreja;
  • Viver na pobreza e na comunhão de bens, na correção fraterna, no trabalho silencioso e assíduo, obedecendo aos superiores, nos quais Cristo se faz presente, e no serviço aos irmãos;
  • Praticar a ascese penitencial do jejum e da abstinência de carne e combater o bom combate, segundo as exortações de São Paulo, progredindo na vida teologal para viver piedosamente em Cristo;
  • Perseverar com generosidade no serviço do Senhor na espera vigilante de sua vinda.
Traze sempre na boca as palavras deste livro da Lei; medita-o dia e noite, cuidando de fazer o que nele está escrito." (Js 1,8)

"Estou cheio de ardente zelo pelo Senhor Deus dos exércitos." (1Rs 19,44)