IDEAL CARMELITANO
A forma de vida religiosa inaugurada por Santa Teresa tem notas características bem definidas. Ela estava consciente de que estas notas seriam especificações ulteriores de uma vida evangélica autêntica. O essencial desta é a prática dos conselhos evangélicos, como meio de expressão de um amor total. Essa prática se inspira no amor e leva ao amor.
Teresa vê no primado absoluto do amor, ante o qual as "observâncias" e diversas estruturas têm só o valor de meios e instrumentos. Jamais devem obscurecer, nem na teoria nem na vivência, o ideal da caridade.

"Convençamo-nos, minhas filhas, de que a perfeição verdadeira consiste no amor de Deus e do próximo. Quanto mais fielmente guardarmos esses dois mandamentos, tanto mais seremos perfeitas. Toda a nossa Regra e as nossas Constituições são apenas meios para guardarmos esses dois preceitos com maior perfeição" (1M 2,17).

"Os que professam os conselhos evangélicos procurem, antes de mais nada, amar a Deus, que nos amou primeiro, e em todas as situações da vida se esforcem por promover a vida oculta com Cristo em Deus, de onde emana e se impõe o amor ao próximo para a salvação do mundo e a edificação da Igreja. É a caridade também que vivifica e dirige a própria prática dos conselhos evangélicos (Perfectae caritatis, 6).
Teresa quer que sua família, reunida em nome do Senhor, tenda para a perfeição da caridade. Esta totalidade de Teresa em seu ideal é um dos traços mais fortes de sua personalidade, que quer a todos a todo custo: "O Senhor disse-me: 'Filha, quão poucos me amam verdadeiramente. Se me amassem, não lhes encobriria meus segredos. Sabes o que é amar-me de verdade? É compreender que tudo quanto não me agrada é mentira!'" (Vida 40,1).
Informai-vos sempre do que é mais perfeito
Nas Constituições, ordena-se: "Atentam muito que as que houverem de receber sejam pessoas que tendam à oração e pretendam toda perfeição."
O princípio de tender à perfeição da caridade é a condição indispensável que Teresa exige de suas filhas desde que se apresentam às portas do mosteiro. Teresa não se contenta com a observância material do que foi prometido. "Entre guardar e guardar há muita diferença". Ela deseja uma observância vivificada pela caridade. Que leve a viver o amor com perfeição, conformando a própria vontade com a de Deus, até cumprir perfeitamente a vontade divina.
"Quanto a nós, só estas duas coisas pede o Senhor: amor de Deus e amor do próximo. Guardando-as com perfeição, fazemos sua vontade. Assim, estaremos unidas a Ele" (5M 3,7).
O ideal pode parecer muito elevado. Na realidade, trata-se de um compromisso que se adquire com a profissão religiosa, verdadeiro desposório com Deus. Este desposório já foi realizado pela graça do batismo; mas, para os chamados a seguir Cristo mais de perto, existe um novo compromisso de amor total, na conformidade coerente e realista da própria vida com a do Senhor.
Esta totalidade do amor deve-se expressar na entrega generosa à abnegação e à disponibilidade, características dos conselhos evangélicos. Estes trazem exigências e riquezas de amor que transcendem às normas e prescrições de qualquer código legislativo.
Norma suprema
Na Regra do Carmelo, o seguimento de Cristo é indicado como a norma suprema de vida cujo máximo empenho é: "viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo com um coração puro e reta consciência". Para Teresa, a totalidade da resposta ao amor de Deus encontra seu ideal em Jesus Cristo. Por isso, olhar o Cristo, toma-lo como guia e seguir seus passos para tender à perfeição da caridade.
Juntos andemos, Senhor; por onde fordes, irei eu; por onde passardes, hei de passar" (C 26,6).
"Os que professam os conselhos evangélicos, com fidelidade, consagram-se de modo especial ao Senhor, seguindo a Cristo. Ele, sendo virgem e pobre, pela obediência até a morte na cruz, redimiu e santificou os homens.... quanto mais fervorosamente, pois, se unem a Cristo, por essa doação de si mesmos que abrange toda a vida, tanto mais rica se torna a vida da Igreja" (Perfectae caritatis, 1).
Teresa, convicta desses princípios, põe em relevo as exigências realistas dos votos, à luz do exemplo de Cristo. Para ela, os conselhos evangélicos não são abstrações, mas compromissos. É necessário que em nossa existência se reflitam de modo autêntico a virgindade, a pobreza, a obediência de Cristo Jesus. Para que Ele viva em nós e nossa vida seja sua vida.
Assim, o evangelho se converte em livro vivo e em "norma suprema" de nossos pensamentos e ações. Quem se abandona pela fé a Jesus Cristo, demonstra ao mundo que não o segue pelo caminho de meias medidas. Dá o testemunho não de palavras, mas de vida.
No seguimento de Jesus Cristo
"Pelos votos... o fiel se obriga aos três mencionados conselhos evangélicos. Entrega-se todo a Deus, sumamente amado, de tal modo que por novo e peculiar título, é destinado ao serviço de Deus e à sua honra. Pelo batismo, já está morto para o pecado e consagrado a Deus. Mas, para que possa colher frutos mais abundantes da graça batismal, procura pela profissão dos conselhos evangélicos na Igreja livrar-se dos impedimentos que o possam afastar do fervor da caridade e da perfeição do culto divino e consagra-se mais intimamente ao serviço de Deus" (LG 44).
Quisera persuadir os espirituais de que este caminho de Deus não consiste em múltiplas considerações, de modos ou gostos... Trata-se de uma só coisa necessária: saber negar-se deveras no interior e no exterior, abraçando por Cristo o padecer e o mais completo aniquilamento. Aqui está o exercício por excelência, no qual se encerram todos os outros. E como este exercício é a raiz e o resumo das virtudes, se nele há falta, tudo o mais é perda de tempo... ainda que tenham altas comunicações e considerações como os anjos. O proveito está unicamente em imitar a Cristo que é o caminho, a Verdade e a Vida." (II Subida 7,8)
Ser consagrados no Carmelo
A consagração a Deus – fundamento da vida religiosa – é um dom divino. Deus chama alguém por Ele amado para lhe ser consagrado com exclusividade. Segrega-o para as coisas divinas, de tal maneira que corpo, alma, espírito e todo o seu agir sejam de Deus e para Deus só.
Na Igreja, o Carmelo é uma forma específica de consagração a Deus. A Ordem é de estrutura contemplativa. Ser carmelita é estar à escuta de Deus e dar-lhe, com a vida, uma resposta de fé e de amor através da oração. Ser carmelita é ser oração pela Igreja.

No pensamento de Teresa de Jesus, a vida religiosa aprofunda a consagração batismal, consolidando o primado de Deus em nossa vida e desenvolvendo intensa relação esponsal com Cristo. "Somos desposadas. E todas as almas o são pelo batismo" (C 22,7). Chamava seus carmelos de "castelinhos de bons cristãos".
Teresa de Jesus atribui à vida religiosa profundo sentido cristológico:
- realiza a presença de Cristo na comunidade, sua imitação é proposta como modelo supremo;
- segui-lo e escutá-lo como mestre, viver em comunhão com Ele, como amigo;
- alcançar nele a união com Deus.
Esta consagração, feita para imitar Jesus, é a plenitude do dom do batismo. Veja-se, por exemplo, em V 32,11 e C 2,1.
Finalmente, a vida religiosa implica novo empenho na busca da perfeição e no testemunho (oração, pobreza, amor, paz, fidelidade ao evangelho e à Igreja...); deve avivar o sentido de Igreja e de seu serviço, levando a colaborar na evangelização do mundo.
Consagração
Hoje, acentua-se bem que a consagração religiosa realiza o sentido de eleição vivida pelo povo de Israel e que podemos aplicar à experiência passiva e ativa da consagração a riqueza do mistério da aliança de Deus com o seu povo.
Marcar o aspecto "passivo" da consagração, por parte de Deus, supõe lembrar a primazia de Deus, a iniciativa de sua graça, a gratuidade do dom de Deus, a posse que ele quer exercer na vida do religioso que livremente corresponde com sua entrega à doação do seu ser a Deus. O voto de castidade sublinha de forma específica o sentido esponsal desta consagração. A aliança com Deus, feito na vida religiosa, supõe a experiência da Nova Aliança na qual tudo é dom, presença do Espírito que santifica e consagra a Igreja e nela, os cristãos, pelo batismo. Por isso se diz que na raiz da consagração batismal se insere a consagração religiosa, que expressa mais perfeitamente aquela.
Ao sugerir o significado "ativo" da consagração como entrega e dedicação total do religioso, afirma-se a livre doação com que se responde a Deus, sumamente amado, ao perceber o sumo amor de eleição vocacional.
A Virgem Maria é o exemplo
Ela é a consagrada, a ungida, a cheia de graça pelo dom do Espírito Santo. É a primeira seguidora de Jesus, a primeira discípula, em quem se realiza a síntese da consagração passiva e ativa; nela se consuma em perfeição o seguimento de Jesus e a perfeita imitação de seu Filho, numa adesão total à sua pessoa e à causa do Evangelho.

São João da Cruz quis enraizar todo o mistério da vida cristã no sacramento do batismo:
Sob a graça da árvore da cruz, o Filho de Deus remiu e desposou a natureza humana e, portanto, cada alma, concedendo-lhe sua graça na cruz. Ali comigo foste desposada, ali te dei a mão. Este matrimônio espiritual de Deus com a alma, esta consagração esponsal, na linha da aliança da cruz, culmina no matrimônio espiritual da perfeição cristã." (CB, 23)
